Pesquisa mostra que brasileiros desconfiam pouco da veracidade de notícias compartilhadas na internet. Postagens e links patrocinados por políticos e robôs também deturpam o debate público.

Apesar de todo o destaque que a questão das chamadas fake news tem recebido nos últimos tempos, com enxurradas de matérias produzidas pela mídia tradicional, que procura assim resgatar parte da credibilidade perdida – junto com a audiência – para as rede sociais, segundo a pesquisa A Cara da Democracia no Brasil,  apenas uma minoria da população brasileira admite ter sido alvo de notícias falsas sobre política.

Desenvolvida pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação (IDDC), pesquisa da professora Marisa von Bulow e Max Stábile, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) mostra que apenas 23,9% dos entrevistados afirmam desconfiar da veracidade das informações.

Esse número quase dobra (45,7%) para aqueles que dizem que usam as redes sociais como forma preferencial para consumir notícias sobre política. Ainda assim, os pesquisadores consideram baixo o nível de consciência sobre esse problema, que tende a ter repercussões ainda maiores em anos eleitorais.

“É a evidência de que o fenômeno das notícias falsas ainda não é percebido como tal por uma parte importante da população, que tenderia a acreditar nessas notícias”, dizem os pesquisadores. A percepção sobre a veracidade dos conteúdos noticiosos pouco varia em relação a critérios como escolaridade, renda, idade ou sexo.

O cenário muda quando os entrevistados são divididos de acordo com suas convicções ideológico-políticas. As pessoas mais à esquerda e, mais ainda, à direita, tendem a suspeitar mais da credibilidade das notícias que recebem nos meios virtuais. Mas, segundo os pesquisadores, isso não quer dizer que esses grupos posicionados nos extremos políticos tenham maior consciência sobre o fenômeno das fake news.

“Pesquisas realizadas nos Estados Unidos mostram que, paradoxalmente, aqueles mais desconfiados das notícias que recebem são também os maiores alvos da indústria de produção de notícias falsas. O mesmo estudo que avaliou que um em cada quatro americanos acessou sites de notícias falsas, identificou que a maior parte das visitas a essas páginas foi feita por eleitores conservadores”, observam os pesquisadores.

Não é só fake news

No seminário O Legislativo e as Mídias Sociais – Desafios e Oportunidades de Comunicação, realizado na última quinta-feira (24), pelo Senado, em Brasília, a professora Marisa von Bülow afirmou que o fator fake news não é o único a contribuir para a manipulação e a distorção do debate político nos meios virtuais.

Nas redes sociais, ela chamou a atenção para a prática da “compra” de comentários – que podem ou não ter um conteúdo inverídico, e fazer uso ou não de robôs com a produção automatizada de comentários –, que também tem servido para influenciar as discussões, dando “falsa visibilidade” a determinados temas e opiniões que, de outra forma, não teriam. Segundo ela, esses comentários não espontâneos retiram desses “fóruns virtuais” a capacidade de servirem como locais adequados para o desenvolvimento da discussão pública.

Nos mecanismos de busca (Google e afins), os riscos são os chamados links patrocinados e os algoritmos que definem “quem recebe o que, em que ordem e por quê”, tudo isso sem a menor transparência, abrindo ampla margem às manipulações. Em experimento rudimentar, os alunos da professora da UnB perceberam que os links oferecidos pelos buscadores variavam de acordo com o local de origem da pesquisa, e apresentavam resultados discrepantes se o usuário estivesse logado à conta do buscador, ou se não estivesse, o que demonstra que a distribuição de conteúdos não é neutra, mas definidas segundo critérios, também obscuros, assim como das redes sociais.

O risco, segundo a professora da UnB, é que toda essa confusão informacional agrave ainda mais a descrença da população na política e na democracia, favorecendo o surgimento de “vozes autoritárias” no debate eleitoral.

Abrindo a caixa-preta

Buscando oferecer mais transparência para o debate político nos meios virtuais, o professor de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Fabrício Benevenuto criou o projeto Eleições Sem Fake, que reúne uma série de ferramentas que monitoram os anúncios publicitários – postagens impulsionadas – utilizados por políticos, bem como a audiência que eles atingem no Facebook.

Os plugins (programas que rodam associado aos navegadores), criados pelo professor e sua equipe de pesquisadores e alunos também oferecem uma comparação, lado a lado, entre dois sites noticiosos escolhidos pelo usuário, que pode, assim, avaliar como cada um abordou um tema específico, além de mostrar os dados demográficos da audiência de cada veículo de notícia.

Há ainda outro que, operando associado ao Twitter, identifica se foram pessoas ou robôs (também chamados bots) que se engajaram numa determinada discussão a ponto de fazer subir o tema (hashtag) à lista dos assuntos mais comentados da rede (trending topics).

Benevenuto diz que os plugins operam com dados oferecidos pelas próprias redes sociais. O problema maior, segundo ele, são as informações que elas não revelam, como a identidade dos financiadores, tanto no caso das notícias falsas, como nas publicações patrocinadas de políticos e candidatos, que podem, por exemplo, ocultar o crime de caixa 2.

Revista do Brasil, edição 140.

 

Fonte:Tiago Pereira/RBA